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quinta-feira, 9 de abril de 2009

UM DOS GRANDES LANÇAMENTOS DE 2008


Corpulento, voz potente, Miguel dos Anjos já surpreende pela suavidade com que se comporta e canta. A suavidade de ser e cantar é, como se vê logo, uma opção existencial e musical. Não é por acaso que neste seu primeiro disco, “Esse samba todo é nosso” (Fina Flor), Miguel, de forma até inconsciente, empresta sua suavidade a algumas músicas criadas pelos mestres da suavidade musical. De Mário Reis, o primeiro cantor moderno (porque desprovido de efeitos, com o canto o mais próximo possível da fala cotidiana) do Brasil, quiçá do mundo, Miguel pinçou “Quando o samba acabou”, um Noel Rosa menos festejado do que merecia, samba narrativo, melancólico, belo de doer. De Paulinho da Viola, enfrenta a obra-prima “Coisas do mundo, minha nega”, numa versão originalíssima, guiada por uma batucada delicada conduzida por atabaque e trombone. Curioso que ambas as canções, de Noel e Paulinho, são sambas leves e sincopados que contam histórias secas, pungentes, de se chorar mais para dentro do que com lágrimas. E que, numa outra composição, “Eu canto samba”, Paulinho cita “Quando o samba acabou”, mostrando sua filiação a esse tipo de estética, digamos, suave. Da qual Miguel é seguidor.Em seu primeiro disco, ao recriar Mário Reis / Noel e Paulinho da Viola, Miguel dos Anjos diz portanto de onde veio, algo muito importante para um artista. Mas além de cantor, compositor, ele também diz de onde veio de forma confessional no samba de feitio clássico que dá nome ao disco, “Esse samba todo é nosso”: “Assim como a água não pertence ao rio / Que leva a chuva para o mar / Quando eu canto sou somente leito pro samba passar”, diz Miguel num verso que Paulinho da Viola seguramente assinaria não apenas pelo que diz mas pelas insuspeitadas metáforas com água. Continua dizendo de onde vem no samba também próprio que abre o CD, “Bênção em vida”: “Não foi de lá foi daqui / A fonte do raio de luz que iluminou sua canção / Foi por gratidão / Que o velho anjo, tomado de fé, seu samba abençoou”. Que “anjo” é esse? O “Anjo da Velha Guarda”, o clássico contemporâneo de Moacyr Luz e Aldir Blanc recriado por Miguel, verdadeiro hino dos sambistas de hoje, protegidos e inspirados pela Velha Guarda mas com a criatividade apontada para o futuro. Miguel dos Anjos é mineiro e, desculpem o clichê, discreto. Figura importantíssima na noite de Belo Horizonte, ele criou eventos que entraram para a história da música local, como o “Samba do compositor”, dedicado a autores como Nei Lopes, Hermínio Bello de Carvalho e Walter Alfaiate. Ou o “Samba da madrugada”, roda que acontece aos sábados no bairro Caiçara, tradicional reduto do samba e do choro de BH, que começa às 2h e só termina quando raia o dia. Coisa de malandro que gosta de samba e gosta da noite.Apesar disso, mas bem fiel ao seu estilo pessoal e musical, Miguel chegou ao Rio pisando leve. Eu o conheci na casa de Nei Lopes, em dia de samba, lugar em que não vai qualquer um. Agora, comprovando sua admiração, Nei presenteia Miguel em seu primeiro disco com dois sambas inéditos, ambos em parceria com Ruy Quaresma. Em “Samba da madrugada”, Ruy e Nei homenageiam explicitamente o cantor (e a madrugada de samba que comanda em BH) em compasso de samba de carnaval: “Já é manhã, galo cantou / E o amor me deu tudo que eu quis / O samba da madrugada fez meu dia clarear feliz”. Já em “Barravento” revelam outra faceta artística do cantor e compositor, a da negritude e da influência africana, com direito a participação vocal da Companhia Dá no Coro, coral carioca especializado em música negra.Ruy Quaresma, diretor artístico da Fina Flor e produtor do CD, diz que a intenção deste primeiro trabalho de Miguel era justamente mostrar todas as suas facetas de cantor e compositor. Por isso, o repertório é mesclado de sambas inéditos mas calcado em sambas conhecidos, alguns clássicos até. “O Miguel sempre cantou na noite em Belo Horizonte, por isso quis ressaltar essa idéia de cantor, além de seu trabalho autoral”. O clássico samba-exaltação “Olhos verdes” (Vicente Paiva) mostra, por exemplo, como ele se dá bem como crooner de orquestra. Numa música menos conhecida (mas não menos importante) de João Bosco e Aldir Blanc, “A nível de...”, ele ressalta, com sua suavidade peculiar, as sutilezas da letra, num outro samba narrativo, como tantos do CD. Um clássico do jovem Chico Buarque, “Ela desatinou”, ganha de Miguel uma versão cool, com divisões rítmicas inventivas, na qual Miguel mostra a meu ver suas muitas qualidades como cantor.Das regravações, a mais surpreendente é a de “Canção do sal”, primeiro samba gravado de Milton Nascimento e que, por arte do arranjo de Ruy Quaresma, reaparece em forma de baião. Com direito a lindo desenho de cordas e ao acordeom do especialista Zé Américo, o baião ressalta o caráter épico de “Canção do sal”, uma espécie de homenagem de Miguel ao conterrâneo Milton e a todos os compositores do Clube da Esquina, que tanto o influenciaram.Amparado pela produção e os arranjos de Ruy Quaresma e acompanhado por alguns dos melhores músicos cariocas, Miguel diz de onde e ao que veio em seu disco de estréia. Trata-se de um cantor cool, musicalíssimo, original e fiel a uma estética de longa tradição na música brasileira. Mas em mais um samba autoral do disco, “Bem-vinda presença”, é que ele confessa qual o centro de sua aventura artística: “O ofício de compositor é o maior alento da vida”.




Hugo Sukman, maio de 2008





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